Dó, Sol e as galinhas

•June 22, 2017 • Leave a Comment

[Algum dia no começo de maio de 2015]

Eu voltava do almoço, em Porto Alegre, quando parei diante de um dos portões de um enorme terreno próximo à Av. Protásio Alves, no bairro Santa Cecília (depois fiquei sabendo que pertende à rede Zaffari de supermercados e está lá esperando o momento certo para mais uma especulação imobiliária).

Entre árvores, entulhos, muitas, muitas galinhas, galos e pintinhos, uma quadra de futebol e vários brinquedos espalhados vive um garoto chamado Nicolas, segundo ele, com quatro anos e um imão gêmeo com o mesmo nome (pois é…).

Sozinho no terreno, ele se aproximou do portão e engatamos uma conversa. Ele, do lado de dentro, eu, transeunte, e eu, e nós dois debaixo de um sol escaldante. Perguntou-me, de sopetão, se eu tinha filhos, ao que respondi que não. Em poucos minutos, me atrevo e revelo minha curiosidade:

– De quem são estas galinhas, Nicolas?

– Minhas.

– Todas elas?

– Sim,

– E que você faz com elas?

– Eu como. Meu pai mata para a gente comer.

– E você não tem dó?

– O que é dó?

Arrisquei uma descrição, mas logo entendi que não se pode explicar o que não compreende ou se justifica entre duas perspectivas tão distintas.

Rocket feeling

•June 19, 2017 • Leave a Comment

“I miss the Earth so much,
I miss my wife
It’s lonely out in space
On such a timeless flight

And I think it’s gonna be a long long time
‘Til touchdown brings me ’round again to find
I’m not the man they think I am at home
Oh, no, no, no.
I’m a rocket man
Rocket man burning out his fuse up here alone

And all this science
I don’t understand
It’s just my job five days a week
A rocket man, a rocket man”

Woke up today with Sir Elton John’s song playing in mind and I feel like “inner” voice simply couldn’t be more assertive. Unconscious surely knows better…

Finlândia 1

•June 13, 2017 • Leave a Comment

E aí, o que tem de tão especial na Finlândia? Essa é a pergunta que mais tenho escutado (ou lido, já que estamos em tempos virtuais).

Tem um monte de coisas e da maioria eu ainda nem faço idéia. Mas algumas já me saltam aos olhos. Uma delas é que aqui as crianças são muito valorizadas; tenho observado um enorme respeito dispensado a elas e ao que elas podem vir a ser. Muito além do famoso sistema de educação de que tanto se fala atualmente, a formação das crianças passa pelo conjunto da sociedade, que desde muito cedo as prepara para serem livres, independentes e responsáveis. Ao nascer, o Estado já lhes garante a presença dos pais por longo período (licença parental) e aos 4 ou 5 anos elas já têm seus grupos, brincam na rua e nos incontáveis bosques distribuídos pela cidade (Helsinki); crianças realizam atividades ao ar livre diariamente, mesmo debaixo de chuva ou neve fraca; vão à escola sozinhas, pegam ônibus (com seu próprio cartão de transporte!) e transitam por trechos de bosque. Há praticamente um playground em cada quarteirão e, não, eu não estou exagerando.

Com tudo isso, o papel da escola na formação (física, emocional e intelectual) das pessoas é apenas relativo e pouco adiantarão os esforços para copiar seu modelo de ensino. De certo que existem problemas por aqui, mas algumas referências parecem promordiais para pensarmos a formação de seres humanos. É mesmo de menino que se torce – ou endireita – um pepino.

Happy end

•June 8, 2017 • Leave a Comment

Today, 7am: 8°C, but feeling as 5°C.
I decided to ride my bike to work so to warm myself up a little; it eventually became too warm and i took off 2 layers. Anarchist layers have gotten off the bike unnoticed…
What now???
Summer happens: 20°C.

A lenda da placa desacreditada

•September 10, 2015 • Leave a Comment

Por algum tempo tentei vender meu carro, levou quase um ano. Era um Honda Fit 2008, muito bem cuidado e elogiável em vários aspectos. Tinha um esfoladinho lateral, presente do Maurido, mas nada comprometedor.

Certa vez uma senhora mostrou-se muito interessada, mas titubeou em função da placa, que é era SP, apesar de eu tê-lo aquirido em Brasília.

“Disseram pra mim não comprar placa que não seja ‘I’, porque eles recuperam carro de enchente e vêm vender aqui”.

Achei que sua preocupação fosse pontual, fruto de algum experiência familiar mal sucedida. Ledo engano. Quinte dias depois, um jóvem médico pediu para olhar o carro. “Impecável”, disse ele, sem tardar o contraponto: “mas a placa é de SP, não tinha visto”; “gaúcho é foda, não compra carro emplacada em outro estado”, continuou sem que eu pedisse qualquer explicação. Ele reiterou acreditar que o carro estava íntegro, mas receava não poder passá-lo adiante quando precisasse. Deixamos a decisão suspensa até o final do dia, quando sua mensagem que confirmou a decisão negativa, adicionando a seguinte frase: “preciso de um carro que possa vender rapidamente quando for comprar meu apartamento”.

E o verbo se fez fato e ele habita entre os gaúchos. Lenda ou fato, carros recuperados de enchentes e outros sinistros estão por toda a parte e têm todo tipo de placa – inclusive falsificata e gaúcha.

O jóvem médico não se deu conta que atitudes como a dele perpetuam o medo e a desconfiança na medida em que amplifica a sensação do risco.

Eu também comprei um carro de outro estado, aquele  mesmo, mas nunca duvidei que um bom check-up valesse mais que uma placa. And so what? Ficou claro, em ambos os casos, que não é qualidade do carro o elemento decisivo, mas a liquidez, que por sua vez obedece a uma lógica subjetiva baseada no ideia da procedência. É preconceito puro, coisa que gaúcho, via de regra, tem de sobra.

Mas como tudo tem um lado bom, eu (paulista) não corro o risco de ser passada a diante pelo meu marido (gaúcho). 😀

O âmbito da rosa

•May 3, 2007 • 2 Comments

Pois bem, eu ganhei uma rosa! Meu pai me de deu uma rosa de presente no dia em que meu avô, pais dele, faleceu. Essa rosa representa o encerramento, sim, o lacrar da vida e da história. Minha rosa é memória – a memória. Ela é o resultado do perdão, ou o próprio perdão em si mesma.

Ao saber meu avô doente, tratei de dar-lhe uma medalha, um santinho que carregava comigo; votos de boa saúde. Sem chances de recorrer à vida ele se foi, não sem antes deixar-me, por intermédio de meu pai, uma rosa.

É uma rosa muito bonita – sim, ela é, pois eu a guardo e carrego comigo até os dias de hoje. Poucas vezes estivemos separadas. Eu a carrego no peito, todos os dias e todas as noites há cerca de quatorze anos. Eu me olho no espelho e a vejo, sempre, reluzindo; faz-se presente ele e todo o mundo em minha rosa. O pai, inquestionavelmente, a mãe, os filhos todos e um grande mistério.

Ela tem uma fissura central que a reparte em duas metades… Duas partes… Eu aqui, ele lá; nós aqui, ele aqui.

Minha rosa nunca foi só minha e, ainda antes, nem minha foi. Minha rosa é a históia da minha família, tem em si toda luta e cada vitória, desde suas origens, lá e Portugal. Minha rosa, soberba, já não me deixa. Minha rosa é de verdade, ela é a própria verdade, ainda que eu nunca a compreenda.

Minha rosa me faz pensar; ela, singela, me leva ao infinito de todas as coisas. Sim, pois que se todas as coisas põem fim às coisas que deveriam ser infinitas, ela me remete ao porvir daquilo ao qual já foi imposto um fim. Ela me transcende.

Minha Rosa, diz Quintás, é âmbito; é um quase sujeito porque é ativo, porque é capaz de agir sobre mim. De fato, ela é âmbito, mas é mais que isso. Minha rosa, já dito, é infinito. Ela é a verdade, e por isso, não há quem a determine. Ela é – maior que eu.

“El principito se dirige a las rosas y les dice:
“Sois bellas, pero estáis vacías (…). No se puede morir por vosotras. Sin duda que un transeúnte común creerá que mi rosa se os parece. Pero ella sola es más importante que todas vosotras, puesto que es ella la rosa a quien he regado, (…) puesto que ella es mi rosa””.

Minha Rosa tem em si todas as coisas: a vida, a morte, o bom e o mau. Minha Rosa é livre e está presa a uma corrente. Minha rosa, um pingente.

“Applaud, my friends, the comedy is over.”

•May 3, 2007 • 1 Comment

(…)

Pope finally noted that “Violence is incompatible with the nature of God and the nature of the soul.”

It means that Limbo has just been sent to limbo. It thus also means the salvation of Plato and Socrates  – who are now free from the Divine Comedy statements (literally).

Well, I started thinking about church, then about its message and then again about who composed the most beautiful songs it still plays. Where did they go to?

I mean, what might have happened to atheist (or at least not Christian) souls like Berlioz, Bizet, Brahms, Debussy, Mozart, Paganini, Schubert and his pupil, Schumann, Strauss, Tchaikovsky, Wagner and the author of the quotation above, Ludwig von Beethoven, among so many others?

I love their music, I believe music comes from soul, I also think their songs bring me (to) peace. Am I supposed to choose between music and peace?

Ok, that’s enough for today.

Pax Vobiscum, anyway